Doces lembranças da infância

Quando eu vejo uma laranja madura minha mente devaneia nas doces lembranças da minha infância. Lembranças dos nossos pés de laranjas campista e azeda, lembranças de um tempo de muita escassez, mas muito sabor das frutas da época. Lembranças do Neném e da Fininha e suas laranjas brancas, cheirosas e deliciosas. Eles eram nossos vizinhos na roça lá no Paiol, na casa deles tinha um pé de laranja branca encantadoramente deliciosa, que por aqui não existe mais.

Tínhamos em nossa casa vários pés de laranjas Campista, uma variedade incrível, de sabor sem igual. Quando chegava a época das laranjas nos esbaldávamos, chupávamos de manhã, de tarde e de noite, elas começavam a amadurecer em abril ou antes da semana santa e duravam até fim de julho. E era no fim de agosto a princípio de setembro que as laranjas brancas do Neném ficavam docinhas, era nessa época que também virávamos anjinhos só para ganhar as laranjas do Neném. É claro que nem sempre ele nos dava, mas valia a pena insistir pois tinha os dias de sorte (risos). Ele era um homem muito bravo, e cada meia dúzia de laranjas brancas ganhadas era um momento de festa e partilha para mim e meus irmãos.

Mas enquanto isso não acontecia nos virávamos como podíamos, íamos chupar as laranjas murchas que caíam escondidas no meio do canavial, perto dos pés de laranjas lá de casa, está aí outra coisa que nunca mais verei, laranjas murchas de meses escondidas nas palhas de cana e ainda por cima docinhas e suculentas.

Hoje em dia as laranjas duram muito pouco e quase sempre apodrecem na fruteira, por isso quando for comprar laranjas se possível compre as orgânicas ou as da agricultura familiar, com certeza elas vão durar muito mais tempo em sua fruteira.

O tempo passou e hoje as laranjas fazem parte da minha vida em abundância. Usamos as cascas para fazermos as deliciosas casquinhas de laranja, com isso sobram muitas laranjas descascadas, que com muito carinho doamos para a população de Carmópolis, e que tenho certeza alegra a vida de muitas crianças como as laranjas do Neném e da Fininha alegravam minha vida.

Gratidão ao Neném e a Fininha, que me fizeram desde pequena entender o valor de doar e receber um pouco do que temos, a entender a diferença de uma fruta boa e a importância de colhê-la na hora certa! Nem antes, nem depois, tudo no seu tempo sempre!